Miguel Alvarenga - Reza assim a placa (foto em baixo) que, descerrada em 10 de Junho de 1984, imortaliza nos corredores da Monumental "Celestino Graça" aquela célebre e nunca mais esquecida tarde de 30 de Setembro de 1979, quando o Maestro João Moura, a quem ao tempo referiam como o "Niño Prodígio" do toureio a cavalo, ali se encerrou com sete toiros, os seis que estavam anunciados e mais o sobrero. Quem viu, eu vi, nunca mais esqueceu:
"Só em praça com seus 9 cavalos fogosos e seis touros de soberana presença, escreveu um grande capítulo da História do Toureio Equestre em Portugal, com lides aprimoradas, artísticas, entre sorrisos e o perfume do génio, a execução virtuosa, a atitude senhorial no sopro fragante de juventude e de raça.
"E no sétimo, como brinde ao respeitável, quando o delírio alvoroçava as bancadas até aos topes, corolário de actuações múltiplas e enfeitadas de braveza - aconteceu a glorificação dessa tarde inédita e memorável. Foi em dia de Sua Majestade João Moura".
46 anos depois, podia-se - e devia-se - reescrever a placa, tal como João Moura Júnior reescreveu ontem a História, e a Glória, nessa mesma Monumental de Santarém, lidando a primor seis toiros todos diferentes, de distintas ganadarias, sem que um único tivesse destoado ou borrado a pintura numa tarde que tão cedo também não vamos esquecer. Não houve um toiro mau, não houve um toiro manso, não houve um toiro chato.
O Maestro Moura encerrou-se com sete toiros nesta praça em 1979, mas em Setembro, no final da temporada. João Júnior repetiu a proeza, mas fê-lo correndo o risco de estar no início da temporada, ainda sem corridas feitas, ainda sem os treze - eram treze - cavalos rodados. E foi um êxito memorável. Uma vitória. E uma lição. De génio, como a do Pai.
Em seis toiros, nem um ferro falhado, nem uma passagem em falso, nem um toque, nada. A perfeição reinou do princípio ao fim, João Moura Jr. deixou bem claro que é líder, que é um toureiro de outra galáxia, que está, de facto, muitos pontos à frente do pelotão - que, quase meio século depois, é outra vez um Moura o toureiro que está na frente. E que manda nisto.
E foi, para ele, uma vitória. Santarém é a maior praça de toiros do país. Tinha ontem mais de oito mil espectadores nas bancadas, o que se traduz em três quartos fortes bem preenchidos. E quem estava ali, estava ali por ele.
Arrancou com o toiro de Vale do Sorraia, um bonito exemplar com 500 quilos, toiro sério, exigente, a transmitir emoção. Lide brilhante, segura, tranquila, como as que se seguiram, a demonstrar poderio, segurança, maestria.
O segundo foi o de Romão Tenório, com 620 quilos, um toiro imponente, bonito, mais suave, mas nem por isso fácil. João voltou a estar senhor da situação, a mandar, a lidar com superioridade. Muito bem.
Seguiu-se o toiro sério de Veiga Teixeira, com 520 quilos, um bonito exemplar, dos que pedem contas e metem mudanças, mais uma lide perfeita, onde tudo foi bem feito. Moura Jr. a reafirmar que é toureiro para todos os toiros e não escolhe a comodidade.
Veio depois o toiro de Palha, com 560 quilos, outro toiro a pedir contas, a encher a arena de emoção, de verdade e de perigo. João esteve imponente, voltando a transmitir uma arrepiante segurança, aliada à maestria que marca a diferença e faz dele o número-um.
Não há quinto mau, reza o ditado. E não houve. Arrancava-se com alegria de todos os terrenos, a impor o poder e a raça de um toiro bravo, o bonito exemplar de Murteira Grave. Superior e emotivo esteve João Moura Jr., a reafirmar o binómio de tanto sucesso que acontece sempre que se encontra em praça com um toiro da Galeana. No final, o ganadeiro Joaquim Grave foi premiado com a mais que merecida volta à arena, muito aplaudida, em reconhecimento à bravura do seu toiro. Ao valor da sua selecção, do seu saber, da ganadaria que tem.
Fechou praça o toiro de António Raul Brito Paes, o maior dos seis, imponente, com 640 quilos, com mobilidade, a emocionar em todos os momentos, a impor respeito, toiro que, a meu ver, deveria ter sido também premiado com a volta à praça do ganadeiro. E foi neste toiro que aconteceu o que se esperava, mas ninguém tinha bem a certeza de que iria acontecer.
João Moura Jr. foi à trincheira buscar seu pai, que entrou em cena "à paisana" e recebeu a mais estrondosa ovação da tarde. E viram-se lágrimas nos olhos de tanta gente, e viu-se o público de pé, a aclamar Sua Majestade, 46 anos depois, a brilhar ali de novo na tarde em que seu filho reescreveu, com a mesma glória, a sua História inesquecível.
Três ferros do outro mundo, a lidar e a bregar como só ele sabe, ainda e sempre a tratar os toiros por tu, um momento do outro mundo. Ai, valha-me Deus, tivesse ele força de vontade para fazer uma dieta (desculpa lá, João, mas é para teu bem que o repito) e ninguém o agarrava.
Em poucos minutos e numa tão curta intervenção, ele deixou ali bem claro que ainda é o primeiro e que nunca, mas nunca mesmo, apareceu ainda outro toureiro igual.
E no fim, a volta aplaudida. Aclamada. E pegaram nos dois aos ombros - e foi assim que acabou esta tarde histórica, primeira das dez que Moura Júnior projecta protagonizar este ano, nem mais uma, esta tarde com o pai a "dar uma ajuda" e a encher de brilhantismo, de emoção, de saudade também, uma corrida que vai marcar esta temporada.
João Moura Jr. brindou as lides a sua filha; a sua Mãe, Teresa Braz; a seu Pai; aos céus, certamente à memória dos seus familiares queridos que já partiram, lembro o avô João e o tio Benito, jamais os vou esquecer; aos políticos que presidiram no camarote ao espectáculo, honrando a tauromaquia - os Presidentes das Câmaras de Santarém e de Monfortre, João Teixeira Leite e Gonçalo Lagem; o ministro da Educação, Fernando Alexandre; o secretário de Estado da Agricultura, João Moura; e Ricardo Gonçalves, ex-Presidente da Câmara de Santarém, actual Presidente do Instituto Português do Desporto e Juventude. Na bancada, entre outros, esteve também Paulo Núncio, deputado do CDS.
Tarde de glória, também, para os grupos de forcados Amadores de Santarém e Amadores de Montemor, com seis grandes e emotivas pegas ao primeiro intento.
Por Santarém pegaram o cabo Francisco Graciosa, João Faro e Francisco Cabaço; por Montemor, foram caras Vasco Ponce, Vasco Carolino e José Maria Cortes Pena Monteiro. Mais logo, como sempre, vamos aqui mostrar as sequências das seis pegas.
João Ganhão, Duarte Alegrete, Benito Moura, António Telles Bastos, Duarte Silva e José Maria Maldonado Cortes foram os seis bandarilheiros da tarde, mas destacaram-se mais a colocar os toiros para os forcados do que propriamente a intervir nas lides de João Moura Jr. - que até aí marcou a diferença, raramente se tendo visto um bandarilheiro em praça.
Marco Cardoso foi o eficiente e muito diligente director de corrida, assessorado pelo reputado médico veterinário José Luis da Cruz, com José Henriques a brilhar nos toques. Ao início da corrida, guardou-se um minuto de silêncio em memória de Joaquim Carlos, saudoso maioral da ganadaria Palha, falecido na semana passada.
Uma palavra final para aplaudir mais um triunfo importante da importantíssima Associação Sector 9, que uma vez mais conseguiu reunir em torno desta corrida todo um ambiente fantástico, a lembrar os tempos de antigamente, levando a efeito uma jornada espectacular, um testemunho verdadeiro de resilência e aficion de um público aficionado que quase encheu a Monumental, apesar da adversidade da chuva e do mau tempo que se fez sentir nas últimas semanas.
Cantou-se um Hino de Glória à Tauromaquia e à Família Moura - ao novo Moura que manda na Festa e ao antigo Moura que, 46 anos depois, nos encheu outra vez os olhos de lágrimas de emoção como naquela tarde histórica de Setembro de 1979.
Voltamos em Junho a Santarém.
Fotos M. Alvarenga
![]() |
A placa que imortaliza a encerrona de João Moura pai há 46 anos nesta mesma Monumental de Santarém |
Mais de 8 mil espectadores ontem em Santarém |
![]() |
Seguro, tranquilo, magistral! João Moura Jr. não teve uma falha em seis toiros, foi tudo perfeito e bem feito! |
![]() |
46 anos depois, Sua Majestade, João Moura, voltou a encher-nos os olhos de lágrimas de emoção! |